O que de fato é um ser EXPATRIADO?

De acordo com o dicionário Michaelis, o significado de Expatriado ou Expatriar é, dentre outras, “Sair voluntariamente da pátria”, já para o significado de Pátria temos “Parte de um país em que alguém nasceu; terra natal.”, logo, podemos concluir que expatriado é: Aquele que sai voluntariamente da parte de um país onde nasceu; que deixou a sua terra natal. Para mim, Expatriado não passa de um estado de espírito em que você mesmo se coloca, de quando VOCÊ se sente tirado de sua zona de conforto e se propõe um desafio que não rompe só com barreiras geográficas, mas principalmente culturais.  

É baseado nessa conclusão que eu conto um pouco da minha história como expatriado, desde pequeno sempre sonhei em ser piloto, porém por morar numa cidade pequena no interior de Santa Catarina chamada São Miguel do Oeste, o “acesso” a esta profissão era um pouco difícil, por este motivo que aos 17 anos me tornei um expatriado pela primeira vez quando sai de minha cidade natal e fui morar em Caxias do Sul, onde iria residir minha irmã e onde eu teria acesso a uma educação de melhor qualidade, facilitando para que eu me preparasse para passar no vestibular do curso que eu pretendia.

E lá fui eu, deixando “a colônia” para trás rumo a “cidade grande”, ansioso, apreensivo e preocupado, me vi pela primeira vez longe da saia da mamãe, apesar de ter minha irmã por perto o desafio era meu, escola nova, amigos novos e rotina nova. Não foi uma mudança fácil, sempre muito tímido e retraído, cai numa turma na escola onde os mesmos estudavam juntos há vários anos durante todo o dia, entravam de manhã e saiam a noitinha, alem das festas e encontros pós aula e em finais de semana, sem contar o fato de terem a facilidade de morar com os pais, enquanto eu, entrava de manhã e saia ao meio dia, morava ao lado da escola e longe do centro, sem ter acesso a outro meio de transporte alem de ônibus, dificultando assim de todas as formas o meu entrosamento com eles. Alem da parte social, outros desafios surgiram, desde atividades corriqueiras do dia a dia (alimentação, limpar a casa, lavar roupa e etc.) ao estudo, o qual era muito mais puxado e com técnicas de ensino bem diferentes, sem contar o fato que já estava estudando para passar na banca de Piloto Privado, exigindo de mim uma dedicação que eu nunca havia experimentado antes. Com foco nos objetivos e um pouco de sorte, consegui que meu esforço fosse recompensado, e acabei passando de ano, no vestibular e na banca, encerrando assim minha primeira experiência como expatriado, abrindo caminho para que a segunda viesse.

Entre idas e vindas, fiz meu curso prático de Piloto Privado e estava pronto para ingressar na universidade, e foi aí que começou minha segunda experiência como expatriado, dei inicio a uma jornada que duraria três anos, mudando-se para Porto Alegre, uma cidade ainda maior que Caxias do Sul, e com costumes e praticas ainda mais diferentes das que eu estava acostumado a ter lá na minha cidadezinha em Santa Catarina, alem de agora estar sozinho, sem ninguém da família por perto. Primeiro fui morar num pensionato, onde dividi quarto com estranhos, inclusive um que me roubava, dividia também a cozinha, a sala de jantar e até o banheiro, moravam pessoas de todas a origens e ocupações lá, entre eles padres, advogados, desempregados, e até um aspirante a ator, todos diferentes mas compartilhando de, alem do mesmo teto um mesmo objetivo, algo melhor para si.

Na universidade o desafio não seria menor, estava eu novamente no meio de um bando de estranhos, dos quatro cantos do Brasil, convivendo com minhas conhecidas limitações, demorei a me enturmar, fiquei de “recuperação” logo no primeiro semestre e ainda passei a lidar com problemas como violência, insegurança, solidão entre outros aspectos de se viver em cidade grande e longe da familia. Aos poucos essa realidade foi se transformando, a turma da universidade foi virando como uma familia, fui morar com outros dois conhecidos próximo a universidade, comecei a fazer o curso prático de Piloto Comercial, e com o passar do tempo estava me sentindo tão em casa e feliz com tudo que estava acontecendo.

Três anos passaram voando, e a universidade chegou ao fim, já não me sentia mais um “expatriado” ali, mas chegou o momento de mudar novamente. Dessa vez, voltei para minha primeira “pátria”, e acreditem ou não, o sentimento foi quase o mesmo de ter ido morar em Caxias do Sul ou Porto Alegre, a realidade era diferente agora, tudo havia mudado, amigos foram embora, amigos casaram, amigos começaram a trabalhar, e comigo não podia ser diferente, passei a ter a responsabilidade de um trabalhador, tive que novamente me enturmar, estabelecer uma nova rotina, e me re-acostumar a velhos hábitos familiares, ônus de voltar a morar com os pais.

Por sorte, ou não, o período de “águas calmas” não durou muito, o avião que eu voava foi vendido e me encontrava desempregado, numa época não muito favorável da aviação, com minhas reservas financeiras acabando, após esgotadas inúmeras tentativas de busca de emprego, me vi pela terceira vez um expatriado, tive que pegar toda minha inibição e timidez, colocar no bolso, e por indicação liguei para o filho de um amigo de um conhecido do meu pai, o qual voava uma aeronave no Mato Grosso do Sul, pedindo se havia algo naquela região para a qual eu pudesse me candidatar, o mesmo me disse que não, porém me ofereceu para ir até lá e passar uns dias afim de que ele me apresentasse a algumas pessoas e empresas para que eu deixasse meu currículo, e lá fui eu para o Mato Grosso do Sul, passei lá voando com ele algumas semanas, contando com a ajuda de um “desconhecido”, rodando de cidade em cidade, todas desconhecidas, conhecendo pessoas que até então eram totalmente desconhecidas para mim, foi uma grande aventura, a qual me rendeu bons contatos e experiências.

Porém, infelizmente não foi dali que saiu meu próximo emprego, e sim de volta a Santa Catarina, num taxi aéreo, para morar em Florianópolis. “Ahhh, mas isso deve ser fácil, morar em Florianópolis, qualquer um gostaria”, não quando se tem que acordar as 4 da manhã para pegar 3 ônibus e chegar no aeroporto em tempo da decolagem, por esse e outros inúmeros obstáculos considero essa como minha quarta experiência como expatriado. Fui chamado numa quarta para começar a trabalhar numa quinta, no começo morei de favor na casa de um tio, depois de um amigo, e por fim fui parar numa pousada, longe de todos, sem televisão e sem carro, morando num quarto e cozinha, mas que cabia no orçamento, pegando todo dia 3 ônibus para ir e 3 ônibus para voltar do aeroporto. Floripa não é o lugar mais fácil do mundo para se fazer amigos, mas pouco a pouco fui me aproximando das pessoas, de colegas de trabalho, inclusive meses mais tarde virei inquilino de um deles, consegui comprar um carrinho e fui estruturando minha vida nova num lugar novo, passando essa a se tornar minha nova “pátria”.

Após um pouco mais de um ano na “pátria” nova, com a ajuda de meus “novos” amigos, consegui ser chamado para a seleção na minha primeira companhia aérea, na qual posteriormente fui contratado. Ufa, realizado um sonho, atingido o objetivo pelo qual havia corrido atrás e pelo qual passei por tudo que passei, agora seria a hora de me acomodar e esperar a aposentadoria. Não, não seria assim tão fácil, necessitou muito estudo e muita dedicação para os treinamentos iniciais, e assim como nas minhas experiências anteriores estava inserido novamente numa nova empresa, dentro de um novo e diverso grupo, envolto de uma cultura completamente diferente e vivendo temporariamente numa nova cidade, São Paulo. Após passado o treinamento inicial, trabalhava semanalmente com um grupo novo de pessoas (tripulação), que em poucos dias iam de meros desconhecidos a melhores amigos (ou não), terminava o ciclo de trabalho e voltava para casa, ainda em Florianópolis, minha “pátria”, até chegar o momento de voltar a São Paulo e voltar ao ciclo.

Fiquei nessa vida, finalmente acomodada por quase 6 anos, foi quando decidi, agora em conjunto com minha família a qual havia crescido por sinal (esposa e enteada), que tentaríamos a vida fora do nosso país, a aviação novamente apresentava um momento de baixa, trazendo pouquíssimas perspectivas para um futuro próximo. Me preparei, estudei, treinei, e fui para uma entrevista de emprego fora do Brasil, no oriente médio, aprovado, volto ao Brasil e começo a me preparar para a mudança, que ocorreu somente um ano após o processo seletivo.

E então veio a quarta e atual fase como expatriado, para muitos, expatriado de verdade. Assim como todas minhas outras experiências, passei pelas mesmas fases de entrar num grupo de desconhecidos, num lugar desconhecido, numa empresa desconhecida, com uma rotina desconhecida e por aí afora. Foi mais difícil? Depende, se eu pensar em quando aquele menino de 17 anos foi para “longe” da casa dos pais, em Caxias do Sul, sem nenhuma experiência de vida, para um ambiente desafiador, que mesmo sendo no próprio país, parecia coisa de outro mundo para ele, e hoje, com uma relativa bagagem de vida nas costas, e outras experiências “semelhantes”, esse momento passa a ser menos desconfortável e equiparável. O que funcionou no passado, continua funcionando até hoje, você se apoia nos amigos que você faz, se apoia na família que tem próximo a você, adquire novos hábitos/hobbies, eu aprendi a cozinhar por exemplo, e hoje cozinho tudo que me lembre minha infância e me deixe “mais próximo” da casa da minha mãe ou de meus costumes anteriores, até mudar de vizinhança caso não esteja contente, mas acima de tudo manter o FOCO, que tem que ser lá na frente, no objetivo que motivou a mudança e a aceitar o desafio, seja lá qual ele for.

Poucas mudanças são para sempre, se sou mais feliz hoje? Não sei. Se tomei a decisão certa? Não sei. O que sei é baseado nos desafios aos quais eu já me propus, e aos quais eu já encarei, eu atingi os meus objetivos, então existe uma chance de que eu esteja no caminho certo. Tenho certeza que a grande maioria de meus colegas e conhecidos possuem histórias muito mais emocionantes, vibrantes e de sucesso do que as minhas, mas eu me considero um exemplo simples e prático de que no fundo nada é de outro mundo, que basta confiar em nossas experiências passadas, no nosso auto-conhecimento e nos nossos objetivos futuros que qualquer mudança passa a ser algo tangível para todos e não um bicho de sete cabeças.

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